
Gitanjali 52 - Rabindranath Tagore
Pensei que poderia Te pedir a guirlanda de flores que levas no pescoço, mas não me atrevi. Fiquei esperando pela manhã, quando tivesses ido embora, para encontrar pedaços dela no Teu leito. E fiquei na madrugada feito mendiga, procurando uma ou duas pétalas caídas.
Coitada de mim, o que foi que encontrei? O que me restou do Teu amor? Nem flor, nem perfume, nem jarro de água perfumada... Apenas a Tua espada poderosa, flamejante como chama e pesada como raio na tempestade. A luz jovem da manhã entra pela janela e se derrama em Teu leito. O pássaro da manhã começa a cantar e mem pergunta: "Mulher, o que é que encontraste?" Não, não foi uma flor, nem perfume, nem jarro de água perfumada. Encontrei somente a Tua espada poderosa.
Sento-me e fico cismando, admirada com esta Tua dádiva. Não acho lugar onde escondê-la. Tenho vergonha de usá-la, e ela me fere quando a aperto contra meu peito. Mesmo assim, porém, eu levarei no meu coração esse honroso fardo de dor, que é a Tua dádiva para mim.
Doravante nada mais temerei neste mundo, e Tu conquistarás a vitória em todas as minhas lutas. Deste-me a morte por companheira, e vou coroá-la com a minha vida. A Tua espada está comigo para cortar minhas amarras, e nada mais temerei neste mundo.
Doravante abandono todos os adornos fúteis. Senhor do meu coração, não vou mais ficar esperando ou me desesperando pelos cantos, e nunca mais vou ser tímida ou caprichosa. Deste-me como ornamento a Tua espada. Não preciso mais dos enfeites de boneca.


